Em maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde elevou para o nível máximo de alerta internacional uma situação de saúde pública relacionada com o vírus Ébola, com casos registados tanto na República Democrática do Congo (RDC) como no Uganda. O agente responsável é o vírus Bundibugyo, uma variante rara e particularmente perigosa dentro desta família de microrganismos. O centro europeu de vigilância epidemiológica iniciou operações de apoio técnico, enviando especialistas para reforçar os esforços de contenção na RDC.

O surto de 2026: o que se sabe até agora
Um hospital em Bunia, no nordeste da RDC, diagnosticou um conjunto de casos clínicos graves, predominantemente entre profissionais de saúde, no início de maio. Os testes iniciais deram resultado negativo, gerando incerteza temporária, mas a 15 de maio, oito em treze amostras confirmaram a infeção, com cinco a permanecerem inconclusivas. A análise genética confirmou tratar-se do vírus Bundibugyo. A 16 de maio, os números indicavam oito casos confirmados por laboratório, 248 casos suspeitos e 80 óbitos suspeitos, correspondendo a uma taxa de mortalidade de 32%. Historicamente, esta estirpe apresenta taxas de mortalidade entre 25% e 50%.
A maioria dos doentes tem entre 20 e 39 anos, sendo cerca de dois terços mulheres. Um doente deslocou-se da RDC para o Uganda, onde viria a falecer — óbito confirmado pelas autoridades ugandesas a 15 de maio. Um contacto de risco elevado foi colocado em isolamento. Apesar da evolução dinâmica e de persistentes incertezas, o centro europeu de vigilância avalia que o risco de infeção para as populações residentes na União Europeia permanece extremamente reduzido.
Os surtos dos últimos 20 anos: um padrão que se repete
O Ébola não é uma ameaça nova. Desde a sua descoberta em 1976, reaparece periodicamente em regiões da África Central e Ocidental, deixando consequências fatais e lições que frequentemente não são bem aplicadas.
Entre 2007 e 2008, o vírus Bundibugyo surgiu pela primeira vez no Uganda, causando 149 infetados e 37 mortes; um segundo surto no mesmo país, em 2012, resultou em 17 vítimas fatais. Esta variante, menos estudada do que a estirpe Zaire, revela uma letalidade equivalente. O maior surto de sempre ocorreu entre 2013 e 2016, sobretudo na Guiné, Serra Leoa e Libéria, com mais de 28.000 casos e cerca de 11.000 óbitos — a primeira vez que o vírus atingiu grandes centros urbanos e atravessou fronteiras internacionais de forma significativa, incluindo casos importados para a Europa e os Estados Unidos. Este episódio expôs fragilidades nos sistemas de saúde mundiais e acelerou a investigação de vacinas.
Entre 2018 e 2020, a RDC enfrentou o segundo maior surto da história, na província do Kivu do Norte, região afetada por conflito armado, com mais de 3.400 infetados e mais de 2.200 mortes; a instabilidade política e a desconfiança das comunidades locais dificultaram a resposta humanitária. Entre 2021 e 2022, registaram-se focos de menor dimensão na RDC e no Uganda, confirmando a circulação endémica do vírus e a necessidade de vigilância contínua. Em 2026, a OMS classificou o surto atual como emergência de saúde pública de âmbito internacional a 17 de maio.
O que é o Ébola?
O Ébola pertence a um grupo de vírus que provocam febre hemorrágica, uma doença rara mas com elevada taxa de mortalidade. Existem quatro estirpes que afetam o ser humano: Zaire (a mais letal, podendo ultrapassar 90% de mortalidade), Sudan, Bundibugyo e Taï Forest. O surto atual tem origem no Bundibugyo, com uma mortalidade entre 25% e 50%.
Como se transmite a doença?
O contacto direto com fluidos corporais constitui a via principal de transmissão: sangue, secreções, tecidos ou outros líquidos de pessoas ou animais doentes ou mortos podem transmitir o vírus. Não se propaga pelo ar, pela água ou pelos alimentos em circunstâncias normais.
Os morcegos frugívoros funcionam provavelmente como reservatório natural do vírus. O contágio humano resulta frequentemente do contacto com animais selvagens doentes — morcegos, primatas, antílopes — durante a caça, manuseamento ou consumo de carne de caça. Os ambientes hospitalares apresentam um risco particular, uma vez que o vírus pode infetar o pessoal de saúde: o surto atual começou precisamente com um conjunto de casos graves entre profissionais hospitalares em Bunia, sendo o equipamento de proteção individual inadequado, em contextos de recursos escassos, um fator crítico de propagação. As práticas fúnebres tradicionais — lavagem e preparação de corpos — representam também uma via de transmissão importante nas comunidades da África Central e Ocidental, uma vez que os corpos de pessoas falecidas com a doença permanecem altamente contagiosos.
Sintomas — como reconhecer a doença?
Os doentes do surto atual apresentaram manifestações clássicas: febre e dores de cabeça, vómitos por vezes hemorrágicos, dor abdominal, fraqueza extrema e hemorragias nasais. O período entre a contaminação e o início dos sintomas varia entre dois e 21 dias, progredindo normalmente em três fases.
Na fase inicial (dias um a três), surge febre de instalação rápida, fadiga intensa, dores musculares e articulares, dores de cabeça e dor de garganta — sintomas facilmente confundíveis com malária ou gripe, o que complica o diagnóstico precoce. Na fase de agravamento (dias três a sete), surgem vómitos e diarreia, erupção cutânea e comprometimento renal e hepático. Nos casos graves, entra-se numa fase hemorrágica, com hemorragias internas e externas e falência de múltiplos órgãos, associada a uma mortalidade muito elevada sem cuidados intensivos adequados.
Existe tratamento ou vacina?
Não existe vacina aprovada para esta variante específica. O tratamento assenta em medidas de suporte — hidratação e controlo dos sintomas. Dois medicamentos baseados em anticorpos monoclonais, o Inmazeb e o Ebanga, foram aprovados para a estirpe Zaire, mas não para o Bundibugyo. A vacina rVSV-ZEBOV (Ervebo), eficaz contra a estirpe Zaire, também não protege contra o Bundibugyo. O desenvolvimento de vacinas para outras variantes está em curso, mas ainda sem aprovação regulatória.
Qual o risco para os viajantes?
O centro europeu de vigilância epidemiológica classifica como muito reduzida a probabilidade de contágio entre os europeus. O vírus não se transmite pelo ar e exige contacto direto com secreções de pessoas doentes ou falecidas. Para viajantes com destino à RDC ou ao Uganda, recomenda-se evitar as zonas afetadas, limitar o contacto próximo com a população local, não interagir com animais selvagens, seguir as instruções sanitárias locais e consultar previamente um especialista em medicina do viajante. Qualquer viajante que desenvolva febre, dores de cabeça intensas, vómitos ou sinais hemorrágicos após o regresso deve isolar-se e contactar imediatamente os serviços médicos, informando sobre o seu historial de viagem.
Resposta internacional — o que está a ser feito
A classificação de emergência de saúde pública internacional pela OMS ativa uma resposta coordenada entre múltiplas entidades: mobilização de especialistas, apoio técnico ao rastreio de contactos, colheita e análise genética de amostras, reforço das precauções de controlo de infeção, triagem nas fronteiras e comunicação de risco junto das comunidades afetadas.
Conclusão
O surto de 2026 constitui um problema de saúde pública genuinamente sério, que exige atenção e coordenação a nível global. Para a maioria dos portugueses e europeus, o risco direto permanece mínimo, mas a vigilância e a informação correta continuam a ser as melhores ferramentas de prevenção. As duas últimas décadas demonstram que o Ébola não é imprevisível: reaparece em contextos de fragilidade dos sistemas de saúde, conflito e proximidade entre populações humanas e vida selvagem. Compreender o vírus permite evitar tanto o medo desproporcionado como a subestimação do risco.
Perguntas Frequentes
Representa este surto um risco para Portugal?
Não de forma significativa. As agências de vigilância europeia e norte-americana consideram o risco mínimo para os residentes europeus e para turistas que não se desloquem às zonas afetadas, uma vez que a transmissão exige contacto direto com fluidos de pessoas doentes.
O que distingue o Bundibugyo das outras estirpes?
É uma de quatro variantes que afetam o ser humano, identificada pela primeira vez em 2007. Apresenta uma mortalidade entre 25% e 50% e, ao contrário da estirpe Zaire, não dispõe de vacina aprovada.
Devo cancelar uma viagem prevista para a RDC ou o Uganda?
É fortemente recomendável contactar um especialista em medicina do viajante antes de qualquer deslocação. Aconselha-se evitar as zonas com transmissão ativa, exceto em caso de necessidade absoluta, e ter em conta que as recomendações podem alterar-se rapidamente.
Que sintomas devo vigiar após regressar de uma zona afetada?
Em caso de isolamento, deve contactar-se o médico assistente ou os serviços de urgência, informando sobre o historial de viagem, sem se deslocar fisicamente sem aviso telefónico prévio. Os sinais a vigiar incluem febre de início rápido, dores de cabeça intensas, fraqueza extrema, vómitos, diarreia e qualquer sinal de hemorragia.
